sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A UMA PASSANTE (Charles Baudelaire)




A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;

Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.

Brilho… e a noite depois ! – Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade ?

Longe daqui ! tarde demais ! nunca talvez !
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que adivinhaste.

NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO (Carlos Drummond de Andrade)


Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam 
um outro canto.  
 
O céu cintila 
sobre flores úmidas. 
Vozes na mata, 
e o maior amor. 
 
Só, na noite, 
seria feliz: 
um sabiá, 
na palmeira, longe. 

Onde é tudo belo 
e fantástico, 
só, na noite, 
seria feliz. 
(Um sabiá,
na palmeira, longe.) 

Ainda um grito de vida e 
voltar 
para onde é tudo belo 
e fantástico: 
a palmeira, o sabiá, 
o longe.
 
(Carlos Drummond de Andrade. In: A Rosa do Povo - 1945)


terça-feira, 5 de agosto de 2014

DENTRO DE TI VER O MAR - INÊS PEDROSA


Olá Galera e amigos blogueiros!
 Olha, a pouco tempo conheci essa escritora portuguesa, Inês Pedrosa é simplesmente incrível! De uma escrita particular, original e que nos encanta, vocês precisam conhecer suas histórias e um pouco sobre ela.

"Acordava no poço da noite com o coração enforcado naquela frase.
– Entrar em ti e dentro de ti ver o mar.
O ruído dos aviões já não a despertava. Habituara‑se. Gostava do som dos motores no céu, provocava‑lhe uma sensação de liberdade. Vivia no extremo onde nada evolui. Existe um momento em que o amor deixa de ser uma narrativa e se imobiliza. Tentara livrar‑se da frase apagando o homem que a proferira. Mas a água do amor foge e volta, pesada, carregada de restos."


Dentro de ti ver o mar, é um romance que vai nos contar a história de três mulheres, Rosa a protagonista, é uma fadista, que se envolve com um homem casado, chamado Gabriel, este tem um comportamento complicado, foi abusado na infância e repete esse abuso de forma violenta com a esposa,e de forma psicológica com a amante, mantém seu casamento à sombra dos filhos, colocando-os como desculpa. Depois de perder a mãe, Rosa tem uma grande revelação e vai em busca do pai que nunca conheceu e, vem parar no Rio de Janeiro.

O caminho de Rosa cruza-se com o de Farimah, engenheira iraniana, que casa com um soropositivo português para fugir de um casamento forçado pelo pai, foge de um mundo opressivo, para tentar a liberdade em Portugal. É através de Luísa que Farimah, consegue se estabelecer em Portugal. Luísa é filha bastarda de um aristocrata e, que sofreu , na mão de sua madrasta e sua irmã, mulher forte, independente, gosta de se relacionar com homens ricos, mas não se apegar a eles, quando jovem abriu mão de sua própria filha.

Uma história repleta de sensações fortes, onde há o amor, o desejo, a alegria, a paixão, os personagens de Inês são carregados de sentimentos que envolve os leitores; a presença do cotidiano, temáticas atuais, o drama do cotidiano.
Achei bastante interessante por parte da autora em seu romance, a inserção do gênero email, a reprodução da conversa por parte dos amantes, que utilizavam deste recurso para se comunicar. Tudo isso, faz com que Dentro de Ti ver o mar, seja, um dos melhores romances da atualidade!

   

POEMA DE SETE FACES - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.


As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.


O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.


O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.


Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.


Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

VERSOS ÍNTIMOS - AUGUSTO DOS ANJOS


Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável 
Enterro de tua última quimera. 
Somente a Ingratidão — esta pantera — 
Foi tua companheira inseparável! 


Acostuma-te à lama que te espera! 
O Homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera. 
 
Toma um fósforo.  Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 
 
Se a alguém causa ainda pena a tua chaga, 
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!

XXVIII - LI HOJE - ALBERTO CAEIRO (Heterônimo Fernando Pessoa)


Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
 

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
 

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
 

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
 

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
 

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.

sábado, 2 de agosto de 2014

PARTIDA - PRIMITIVO PAES



Antes de partir sinto saudades
Da mocidade com toda vibração
Da infância com sua ingenuidade
E da velhice com toda gratidão.

Digo "tchau" aos amigos que deixei
Dos poetas, levarei minha paixão
Quem diria que eu não vou sentir saudade
Das batidas desse velho coração.

Pensamento de poeta é mesmo assim
Cheio de sonhos, devaneios e ilusão:
Pensa que vai; fica,
Não vai não.

Pois,
Olha eu aqui, de novo no pedaço,
Cheio de Vida, de Amor e de Paixão.
Vou plantando sementes da saudade
Em cada palmo de terra desse chão!